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Estas postagens são reflexões que escrevo, mas jamais direi que são minhas, elas apenas chegam, passam por mim, e prosseguem, e nada absolutamente é meu, nada tem origem em mim, são como um rio que chega, refrigera e espera um dia desaguar no mar, todas suas fontes estão em mim, e eu só me deixo estar na correnteza deste rio, meu destino é o mar, e o mar para mim é uma ilustração da esfera de Deus, no livro do Apocalipse João descreveu um mar de vidro, semelhante ao cristal, isto é em relação a Deus.
Eu aguardo que você possa apreciar e desfruta-las, o meu desejo é que você possa ser abençoado ricamente, que possa perceber o fluir deste rio, e se um dia desejar, entre em contato comigo no e-mail adanspsobral@gmail.com.

Bom desfrute.


27 de jan. de 2007

Testemunho

Percebo quão significativo foi aquele momento para mim, ficou marcado em minha lembrança, como brasa em meu viver.
Nasci labio-leporino, e ainda recém-nascido enfrentei as primeiro cinco cirurgias das doze que fiz ao longo do meu viver. Consigo lembrar quando ainda estava no berço, lembro-me dos meus primeiros passos, quando comecei a caminhar pelos quartos, e deparado comigo mesmo diante do espelho, um sentimento de angústia invadiu aquele coraçãozinho naquele momento, como que prenunciando tristezas. Hoje eu amo este menino que fui, se eu pudesse abraça-lo como abraço hoje aos meus filhos, ama-lo e conforta-lo... acalenta-lo dizendo que a tristeza iria embora, que não seria eterna, pois Alguém, uma esperança me encontraria, eu o faria.
Mas a vida seguiu o seu curso assim, a pior lágrima é aquela que não escorre por fora, a lágrima silenciosa que nos mata por dentro, e fui crescendo sem respostas, sem conforto interior, entre uma e outra cirurgia. Aos onze anos eu preparei minha mochila, despedi de minha mãe, que sempre foi presente me ajudando, cheguei no hospital como um viajante, as enfermeiras surpresas, quase podia ler seus pensamentos: - um garoto de onze anos se apresentando sozinho para cirurgia? Após a cirurgia, não havia quarto para mim, pois aos onze anos eu já era alto para minha idade, e me colocaram na ala das crianças, minhas pernas ficavam encolhidas, parecia estar em um berço. Foram noites não dormidas, saudades da família, e lágrimas escorrendo por dentro. Porque Deus me fez assim? Este era o meu discurso interior. Porque nasci assim? Hoje, percebo muitas outras crianças, com as mesmas e outras dificuldades, imensamente mais sérias que as minhas. Como fazer a uma criança compreender isto?
Aos treze anos aflorou em mim a busca por respostas. Livros, misticismo, ciências ocultas, eram todo o meu fascínio. Eu, precisando me agarrar a algo, investi sinceridade na busca. Uma busca diligente, porém sem discernimento, um atropelo para compreender os mistérios da vida, e quem sabe os meus próprios mistérios. Mas nada daquilo saciou minha sede interior, e meu coração secou. Minha mente ficou endurecida. Foi quando eu achei que sabia muita coisa. Já não escorriam lágrimas por dentro, pareciam ter secado, todas. Deus? Deus não fazia parte dos meus pensamentos. Deus havia sido alguns poucos momentos ingênuos, longínquos. Eu não tinha aptidão para Deus, não tinha talento. Jesus ao meu ver, era um prepotente, um radical antiquado. Deus não era compatível com a minha moderna visão espiritual.
Jesus não tinha parte comigo em meus pensamentos.
Dezesseis anos, quis dar fim a vida. Tantas respostas, tanto saber, nenhuma satisfação interior, pensei: Décimo primeiro andar, muito fácil, é só um salto e tudo estará terminado, dar o cabo da própria vida foi uma grande tentação, mas algo me impediu. Lágrimas? Nenhuma, só o barulho da minha alma turbulenta, um silêncio ensurdecedor, um grito que não houve, e uma mente sem descanso.
Até que um grupo de colegas estranhos aproximou, unânimes me falavam de "encontro com Deus." Eu era muito resistente, colocava tropeços em suas mentes, e me vangloriava de os ve-los um a um se calar, pois não tinham respostas, eles ficavam sem respostas para mim e eu continuava sem sentido. Mas um ato apenas, providencial, mudou tudo, um deles reuniu em Deus forças para orar, e foi ali, no passeio da praia, abraçados, que oramos. Naquele instante preciso, busquei força em mim para alcançar Deus, procurei lançar meus olhos ao mais profundo do meu ser a procura de Deus, mas tudo o que encontrei foi meu imenso vazio, um vazio mudo de Deus.
- Deus, onde estás? E lá no fundo, quase imperceptível, Deus me disse: Eu preciso que você derrube o seu castelo, quero edificar-lhe um novo. Mateus 7:24-29.Como foi difícil ouvir aquilo, e ainda dizer para Deus que estava disposto para tal.
- Se é a verdade, Senhor, eu preciso estar no centro dela, custe o que custar.
A caminho para casa, ondas quebravam nas pedras, e eu dizia:
Deus, eu vou te buscar... à medida que caminhava, dizia as mesmas palavras, mas, como se algo me distraísse, minhas palavras foram fugindo de mim, foram sumindo, esmaecendo, então eu disse em um apelo final, como se estivesse preso no fundo do meu próprio poço:
- Deus, por favor, me busque.
Manhã de verão, dezenove anos, subi os degraus do ônibus, havia tristeza e expectativa. Pouquíssimas pessoas estavam no ônibus, e sentei-me junto à janela, sentindo as batidas do próprio coração. Um lindo dia se descortinou a minha frente, mas nenhum brilho mais chamou-me mais a atenção, eu estava resoluto a fazer algo, meu coração desejava com todas as forças uma resposta. E então iniciei uma conversa séria e franca com Deus, como jamais havia sido antes. Até iniciei suplicando ajuda por alguém, mas Deus, não querendo perder-me por mais nenhum instante, me respondeu:
- E a você, quem ajuda?
Deus me falou, me expôs, e pela primeira vez minhas lágrimas vieram a tona diante de Deus, escorreram para fora, como se tivessem sido ajuntadas durante toda minha vida para aquele exato momento, escorreram de mim como uma grande cachoeira, um pranto intenso diante de Deus! mas, de repente, no alge do pranto, algo aconteceu. Deus me tocou no mais profundo do meu ser, de onde rompeu uma grande alegria e gozo, como uma fonte de gozo e satisfação por conta da realidade chamada Deus. Foi como se algo em meu ser houvesse sido destampado para a realidade de Deus. Meu coração se abriu e se dilatou completamente na sua presença, foi como se nunca houvesse respirado, e naquele momento começado a respirar. Como se fosse gerado a primeira vez. De um pranto intenso brotaram risos íntimos de louvor em meu peito, uma grandíssima satisfação interior. Saiu do meu rosto as ranhuras da tristeza e da dor de uma vida apagada, meu rosto agora refletia livremente, quente e cheio de vida afinal. Deus havia se tornado real dentro em mim, em meu espírito.

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